segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

domingo, 19 de fevereiro de 2017




Está vazio o teu peito  No lugar
 do coração talvez um ataúde
 ou nem isso uma sombra
 igual a essa noite onde procuras
 o mar o imenso mar e só encontras
 sede 







 Fernando Pinto do Amaral

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017




Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. 
 Tempo de absoluta depuração. 
Tempo em que não se diz mais: meu amor. 
Porque o amor resultou inútil.
 E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
 E o coração está seco. 









 Carlos Drummond de Andrade
 (Foto de Natalia Drepina)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017




do curso breve de literatura 
 que fiz numa esplanada 
enquanto os músicos de rua 
 tocavam um flamengo desafinado

 aprendi: 
 que a poesia é a comparação 
 de todas as coisas do mundo
 a todas as outras coisas do mundo. 

 espero que não leves a mal
 que pense mansamente em ti
 quando vejo um escaravelho alimentando-se 
de uma palmeira a morrer de pé. 

 entende que comparar-te a um ulisses
 seria uma hipérbole e que sempre recusei o augúrio
 anunciado pela varanda do teu quarto
 e da sua vista para o maior cemitério da cidade.

 mas comparava-te então à palmeira, 
embora te julge por vezes escaravelho, 
 quando o teu exoesqueleto estala à pressão 
das minhas mãos e da vida em comum. 

 foi contigo e com as palmeiras 
 que aprendi a tentar fingir
 a verticalidade dos vivos.
 não me leves então a mal 

 que pense em ti com o mesmo carinho
 com que penso nas palmeiras mortas, 
ou nas crisálidas que fiz explodir entre os dedos 
quando me deixaste sozinha

 a tomar conta dos teus medos ainda por abrir. 






 Ana Bessa Carvalho